Páginas

3.11.12

Meu Velho...




Fui obrigada a me casar quando tinha apenas 15 anos, naquele tempo os pais mandavam e desmandavam na vida dos filhos, que por medo, abaixavam a cabeça e faziam o que era pedido, ou melhor, mandado. Desse modo conheci Luis, meu marido desconhecido que por sorte veio a ser também meu amor. Mas não pensem que foi assim, do nada que nos apaixonamos. Nosso destino nos preparou uma estrada meio torta. No inicio eu odiava aquele homem, odiava o fato de que teria que dividir uma cama com ele, e nosso primeiro dos quatro filhos foi concebido sem amor.

Depois de algum tempo a companhia daquele homem já não era tão insuportável, e confesso que por vezes ele até roubava um sorriso de meus lábios. No dia em que eu completaria 18 anos ele me levou ao teatro, uma realidade muito diferente para mim, que mal sabia ler algumas poucas palavras em letra de forma, mas me encantei por tudo o que vi, e até mesmo pelo que vivi mais tarde. Naquela noite eu o beijei com amor pela primeira vez, e me peguei apaixonada pela pessoa com a qual eu já tinha até mesmo um filho.

Os anos foram se passando e por incrível que pareça aquele sentimento se intensificava dentro de nós, era como se quiséssemos recuperar o precioso tempo perdido, mas sabíamos que não era possível. Desse modo, resolvemos viver o presente com tudo a que tínhamos direito, e íamos descobrindo um ao outro de forma peculiar.

Com trinta anos, nosso ultimo presente veio ao mundo, nasceu em um lindo dia chuvoso de dezembro. Luiz, é claro, era só sorriso à princesinha que acabará de conhecer, pai coruja, isso é o que ele era.

Tivemos anos de vida tranquila, maravilhosamente bem vivida e com histórias para contar. Perguntava-me todos os dias o que teria acontecido se eu realmente tivesse concretizado minha fuga no dia do casamento, mas graças a Deus eu fiquei, casei-me mesmo que forçada para mais tarde descobrir que o amor é algo que precisa ser construído dia a dia, com carinho, dedicação e vontade.

Meu velho, era assim que eu o chamava quando a idade se fez presente em nossas feições. As rugas surgiram, os cabelos brancos transbordavam, os filhos criados (quase me trazendo netos), a vida feita, sem nenhum arrependimento. Mas as coisas boas uma hora acabam, e meu velho se descobriu com uma enfermidade sem cura. Castigo de Deus? Não! Pelo menos para mim não era.

Ele sofreu, e eu sentia uma dor incontrolável aqui no peito, Meu maior desejo era estar em seu lugar, mas infelizmente isso nãopodia acontecer. Assim eu cuidei, dei amor, remédios, aguentei firme para não chorar ao vê-lo deitado na cama sem se mover. Cheguei ao ponto de levar comida em sua boca, vê-lo daquela maneira e sem poder fazer nada me cortava o coração. Descobri que a maior dor que eu ja sentira na vida foi a de ver seus lábios tremulos se fechando aos poucos e irem clareando, clareando, até não haver cor alguma ali... A vida o levou e ele me deixou aqui.

Desesperei-me como nunca. Meu amor havia sido tomado de mim! De forma absolutamente cruel, uma doença maligna que sem dó alguma o carregou para debaixo da terra. Eu demorei em aceitar o fato. Tornei-me uma velha chata, ranzinza, não queria mais cozinhas, e fiz meus filhos contratarem alguém que pudesse cuidar de mim, um fato vergonhoso esse a que me submeti.

Hoje, mais calma, aceitei o fato, mas não concordo com essa coisa da vida, essa mania de tomar de nós aquilo que amamos, isso não é justo. Ninguém deveria ver o ser amado morrer antes de si, isso gera uma dor macabra. Mas meu velho, saiba que esse meu coração pertenceu exclusivamente a você, e olha, ninguém vai toma-lo de ti! Que Deus te guarde e até breve, me espera dai, que eu te guardo daqui.








0 comentários:

Postar um comentário